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Em tempos de glow down...

Na era em que a expressão glow up – espécie de upgrade na imagem física – virou trend de Tiktok, pauta e até tema de infoproduto (!), precisamos respeitar também os momentos opostos...

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Ale Garattoni
dez 19, 2025
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Photo by engin akyurt on Unsplash

Existe uma relação intrínseca entre saúde e imagem. E quem diz isto não sou eu, mas um texto publicado pelo cantor Leo Jaime na última página da revista Capricho, na coluna fixa que ele tinha nos anos 90 na revista. Lá se vão mais de trinta anos, mas ainda sou capaz de me lembrar de trechos que, hoje, certamente gerariam polêmica e até o cancelamento do artista talvez. Em um resumo lapidado, ele ligava a beleza física (geralmente a única preocupação de uma adolescente de classe média alta naquela época) a cuidados de saúde com corpo, cabelos, dentes, unhas etc. Havia um fundamento em suas palavras, ao menos naquela época. A coluna era extremamente bem escrita.

Há exatamente um ano, eu vivia a melhor fase da minha vida, fisica e clinicamente falando. Depois de um semestre de mudanças radicais no estilo de vida, tinha perdido muitos quilos de gordura, construído outros tantos de músculo e exibia orgulhosa uma composição corporal que nem a adolescente/jovem geneticamente magrela jamais experimentara. Fui cortando açúcar, industrializados e pegando firme na academia, encucada com marcadores de colesterol que insistiam em subir – certamente alimentados por todo refrigerante, jujuba e sedentarismo que pautou boa parte da minha vida. Se o intuito inicial era a saúde, o que se via de fora era uma egotrip para postar a foto na praia do Leblon de biquíni e me certificar que a moça que havia me chamado de gorda no meio do ano visualizasse. Que besteira, que ego… Mas a realidade é que, de certa forma, eu estava satisfeita de ter tido, aos 48, o que as jovens hoje batizavam de glow up.


Como eu resetei minha saúde em 2024

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Ale Garattoni
·
January 27, 2025
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Em 2024, mudei meu estilo de vida...

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Ale Garattoni
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August 27, 2025
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Pouco mais de três meses atrás minha vida e minha rotina viraram de cabeça pra baixo, em um daqueles sutis lembretes de que não temos tanto controle quanto imaginamos. Lista de planos, metas e objetivos nem sempre tem um combinado com a vida real. Mais de um ano sem açúcar? Pois o bolo de chocolate com calda que começou sendo mensal em setembro, virou exceção em datas comemorativas em outubro (em tempo: boa parte da família faz aniversário neste mês), evoluiu para semanal em novembro e começou dezembro na base do (quase) todo dia. A cota proteica foi para as cucuias, a academia virou lembrança na maior parte das semanas e até os cuidados básicos como fazer uma unha ou cortar os cabelos virou plano Z.

Cuidando da minha mãe em outra cidade, indo e vindo na ponte-aérea, sendo a pessoa à frente de uma pilha de burocracias chatas, tudo aquilo que eu priorizei em 2024 tinha virado um luxo que não cabia na minha agenda do trimestre.

E foi só aí, vendo aquele monte de vídeos e tutoriais de glow up, sendo protagonizados por pessoas tão privilegiadas como eu era, entendi que a internet que nos inspira também pode nos sufocar. Nos dividir. Nos deixar fora da realidade na qual nossa bolha está também inserida. Não senti raiva nem inveja, ao contrário – sigo valorizando o autocuidado, não só físico, mas também espiritual e emocional. Ao mesmo tempo, reforcei a lembrança de que nem tudo é vontade (ou falta de), nem tudo é disciplina ou disposição. Entre um tutorial de beleza e uma lista de bons hábitos, existe a vida real acontecendo. Acontecendo e, tantas vezes atropelando o importante com o urgente.

Voltarei, sim, pouco a pouco aos hábitos que me permitiram mais saúde, melhor aparência, exames ótimos. Sigo estudando longevidade como um hobby, seguirei valorizando tudo aquilo que me deixa melhor no corpo e na alma. No entanto talvez seja a hora de falar que o glow down existe se faz necessário. Por um tempo, por uma circunstância, por uma realidade. E o limite tênue entre querer fazer o melhor por nós mesmos e nos culpar por não conseguir o estilo de vida da influencer pode ser maléfico. E é. Respeitar momentos e possibilidades não é ser desleixado.

Assistamos, sim, quem nos inspira, quem nos ensina, quem nos dá aquele empurrãozinho rumo a nossa própria melhor versão. Mas tenhamos ao mesmo tempo o bom senso e a autocompaixão de entender que é no mínimo injusto comparar pequenos recortes editados do cotidiano alheio com a nossa vida inteirinha. E, sobretudo, que a gente possa aprender que a importância do glow down é nos permitir dar uma ré de dez metros no carro manual para que ele, por fim, consiga subir melhor a ladeira. Não saber manobrar ali no meio da subida não nos faz menores, apenas humanos!

E como pegar o retorno?

Todo mundo quer ensinar o glow up, mas humildemente – e sem tom negativo – eu tenho a dividir como pretendo conciliar minha retomada (agora, claro, sabendo que planos são só planos e que nos resta fazer o que está ao nosso alcance; já é bastante coisa!).

  • O tal do “bom é inimigo do ótimo” entra com força aqui: muita gente cisma em querer mudar tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Daí fracassa e fica em um eterno tudo ou nada. Retome um bom hábito por vez, na ordem e no ritmo que dá. Parece óbvio, mas, quando a gente rola o feed do instagram com tanta gente linda, maquiada, produtiva, contratada, festejada e seguindo a rotina ideal, acaba esquecendo que nem o mundo se fez em um dia.

  • E por falar em instagram & afins… eu amo o poder de inspiração e instrução das redes. E não deixo de ficar profunda e honestamente feliz por influenciadoras e pessoas que gosto comemorando conquistas. Ao mesmo tempo, se estamos mais vulneráveis e menos aptas a viver o que consideramos ideal, é hora de diminuir a velocidade e usar o botão silenciar (ainda que momentaneamente). Na hora do retorno, limite-se a consumir o que te faz bem, apenas bem. Sem autojulgamento. Você sabe o que e quem acaba tendo um efeito negativo no seu momento.

  • Quando o tsunami está varrendo tudo, não se iluda que vai dar tempo de fazer muito além de correr e se proteger – ou, no caso, assumir as ações que devem ser assumidas da forma mais racional possível (psicoterapia ajuda muito). Mas tão logo as ondas fortes cessam, mesmo com o ambiente mais bagunçado (fisicamente inclusive) já dá para catar um item aqui, outro ali. O que no contexto apresentado pode ser encaixar um compromisso da sua velha & futura rotina que te faz bem. Respirar.

  • Racionalizar. Este foi o maior ganho que tive em quatro anos de psicoterapia semanal. Entregar. Foi o que mais aprendi em um ano e meio de vida católica praticamente. Esta dupla é fun-da-men-tal quando a casa tá caindo. Espiralizar os problemas, tornando-os mais gigantes e trágicos do que de fato são, não ajuda. Lide com o que você tem hoje. Deixa o problema de amanhã para quando ele chegar. Nossa mente tem uma tendência daninha de piorar tudo trazendo apenas os piores cenários. É uma forma da ansiedade se defender (na base do “o que vier é lucro), mas a gente acaba se machucando muito agindo assim.

  • Parte (f)útil: voltando lá para o começo, aquele papo semi-cancelável de beleza x saúde, trate de pensar em suas necessidades. Marque uma limpeza de pele, agrade e respeite sua personalidade (o extrovertido vai querer ver gente; o introvertido vai preferir se isolar), encaixe algo aleatório como, sei lá, uma tarde no boliche.

  • Melhore sua autoestima vencendo o que era um desafio: no meio de todo o caos, numa manhã qualquer em que precisava levar minha mãe a um lugar próximo, catei a chave do carro e fui. Eu passei uns sete anos sem dirigir e, mais recentemente, tinha ensaiado pegar o carro com meu marido do lado umas duas vezes. Corta para dezembro e estou eu perdida na Bandeirantes (uma avenida que me dava pânico só de pensar) e dirigindo pra lá e pra cá como se eu nunca tivesse parado. Brinco que meus “divertidamente” já estavam com tantas pautas que nem tiveram tempo de ativar o botão do medo. Mas superar esta barreira, algo bobo pra muita gente, me deu, sim, uma injeção extra de autoestima.

A boa alimentação vai voltar. A cota proteica vai ser novamente calculada. O fuso, a academia, a produtividade, tudo vai se reencaixar. Eu sei que vai. Mas a gentileza com nós mesmos é importante. Se você está em um momento mais difícil, permita-se vivê-lo, saiba agir com base nas prioridades e entenda que nunca parou de chover! No meio tempo? Viva o glow down, meu Deus!

O que vi em cinco anos de agenda

Meus planejamentos, minhas metas, meus erros e acertos minhas conquistas e meus fracassos de 2021 a 2025 inspiram o que vale (ou não) entrar na minha lista de 2026!

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